terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Poesia Matemática


Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Texto extraído do livro "
Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.
Tudo sobre Millôr Fernandes e sua obra em "Biografias".


Devido a impossibilidade de nossa Jane vir postar, tínhamos que achar alguém a altura, com criatividade e perspicácia a altura. Foi então que me ocorreu Millôr Fernandes. Espero que gostem.

O Capetão

4 comentários:

Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Dorei Fobofílica Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ disse...

O texto eu já havia lido faz um bom tempo, mas é leitura de excelente exercício para nossa mente e reflexão também. Aproveitando o mencionado Albert Einstein, aproveito para deixar uma de suas frases, que é de fazer pensar: "A mente que se abre a uma nova ideia jamais retorna ao sei tamanho original."

Beijos no Capetão e na tripulação.

Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ Dorei Fobofílica Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ disse...

"A mente que se abre a uma nova ideia jamais retorna ao seu tamanho original." (Albert Einstein)

Eros e suas experiências. disse...

Muito inteligente e nos proporciona retomarmos tantas leituras com novos olhares.

Beijos carinhosos

http://contoseroticosdeayeskaeamigos.blogspot.com disse...

Nunca fui boa em Matmática kkk
Mas, gostei!!!rsrs


Bjs doces!



Ayesk@Ursinh@